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Resíduos de alimentos ultraprocessados: embalagens, desperdício e impacto ambiental

Por Diego Velázquez 26 de junho de 2026 5 Min de leitura
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Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, chama atenção para um fenômeno que conecta duas das maiores crises contemporâneas: o avanço do consumo de alimentos ultraprocessados e o crescimento exponencial dos resíduos de embalagens nos centros urbanos. 

Contents
O perfil das embalagens de ultraprocessados e seus desafios para a reciclagemDesperdício alimentar e resíduos orgânicos associadosRegulação, rotulagem e o papel da indústria alimentícia

O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais de alimentos ultraprocessados, e essa tendência tem implicações que vão muito além da saúde pública, estendendo-se ao volume, à composição e à reciclabilidade dos resíduos sólidos gerados diariamente nas cidades brasileiras. Se você quer entender como hábitos alimentares e gestão ambiental estão mais conectados do que parecem, este artigo é o ponto de partida.

O perfil das embalagens de ultraprocessados e seus desafios para a reciclagem

Os alimentos ultraprocessados são caracterizados, entre outros aspectos, pelo uso intensivo de embalagens projetadas para maximizar a vida útil do produto, a praticidade do consumo e o apelo visual nas gôndolas do varejo. No entanto, esse conjunto de objetivos resulta em embalagens predominantemente multicamadas, combinando polímeros diferentes, alumínio, papel e tintas em estruturas que são tecnicamente inviáveis para a reciclagem convencional. Embalagens de salgadinhos, biscoitos, achocolatados em pó, macarrão instantâneo e refrigerantes em embalagens cartonadas são exemplos corriqueiros de materiais que chegam às usinas de triagem e seguem diretamente para o rejeito.

Conforme aponta Marcello José Abbud, a questão das embalagens de ultraprocessados ilustra com clareza um dos principais paradoxos da gestão de resíduos urbanos: o consumidor separa e descarta corretamente, a coleta seletiva recolhe o material, mas a usina de triagem não consegue processar e encontrar mercado para boa parte do que foi coletado. O problema não está no comportamento do cidadão nem na operação da usina, mas no design original da embalagem, que nunca foi concebido com critérios de reciclabilidade.

Desperdício alimentar e resíduos orgânicos associados

Além das embalagens, o consumo de ultraprocessados contribui para o desperdício alimentar de forma indireta. Isso ocorre porque alimentos com alta vida útil nas embalagens tendem a ser comprados em volumes maiores do que os efetivamente consumidos, resultando em descarte de produtos vencidos ou parcialmente utilizados. No Brasil, o desperdício alimentar atinge proporções expressivas, com estimativas que apontam para perdas de dezenas de milhões de toneladas de alimentos por ano ao longo de toda a cadeia produtiva e de consumo.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Na perspectiva de Marcello José Abbud, o resíduo orgânico proveniente do desperdício alimentar é um recurso que poderia ser valorizado em larga escala por meio de compostagem e biodigestão, gerando composto orgânico para a agricultura e biogás para geração de energia. Contudo, a ausência de sistemas municipais estruturados para a coleta e o tratamento da fração orgânica dos resíduos urbanos transforma esse potencial em passivo ambiental, com a matéria orgânica indo para aterros, onde contribui para a geração de metano e chorume.

Regulação, rotulagem e o papel da indústria alimentícia

A indústria de alimentos ultraprocessados possui capacidade técnica e econômica para redesenhar suas embalagens em direção a formatos mais recicláveis, mas os incentivos de mercado para essa transição ainda são insuficientes no Brasil. Em vista disso, a ausência de critérios obrigatórios de reciclabilidade para embalagens de alimentos, combinada com a falta de tarifas diferenciadas para materiais de difícil reprocessamento, mantém o status quo de embalagens otimizadas para o custo industrial e para o marketing, não para a destinação ambiental adequada.

Conforme reforça Marcello José Abbud, a regulação é o instrumento mais eficaz para acelerar essa mudança. Na prática, exigências de conteúdo reciclado mínimo nas embalagens, proibição progressiva de materiais multicamadas sem rota de reciclagem viável e rotulagem ambiental obrigatória que informe o consumidor sobre a reciclabilidade de cada embalagem são medidas que já demonstraram efetividade em outros mercados. No Brasil, avançar nessa agenda regulatória é uma das formas mais diretas de reduzir o volume de rejeitos nas usinas de triagem e ampliar a eficiência de todo o sistema de gestão de resíduos sólidos urbanos.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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