Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, chama atenção para um fenômeno que conecta duas das maiores crises contemporâneas: o avanço do consumo de alimentos ultraprocessados e o crescimento exponencial dos resíduos de embalagens nos centros urbanos.
O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais de alimentos ultraprocessados, e essa tendência tem implicações que vão muito além da saúde pública, estendendo-se ao volume, à composição e à reciclabilidade dos resíduos sólidos gerados diariamente nas cidades brasileiras. Se você quer entender como hábitos alimentares e gestão ambiental estão mais conectados do que parecem, este artigo é o ponto de partida.
O perfil das embalagens de ultraprocessados e seus desafios para a reciclagem
Os alimentos ultraprocessados são caracterizados, entre outros aspectos, pelo uso intensivo de embalagens projetadas para maximizar a vida útil do produto, a praticidade do consumo e o apelo visual nas gôndolas do varejo. No entanto, esse conjunto de objetivos resulta em embalagens predominantemente multicamadas, combinando polímeros diferentes, alumínio, papel e tintas em estruturas que são tecnicamente inviáveis para a reciclagem convencional. Embalagens de salgadinhos, biscoitos, achocolatados em pó, macarrão instantâneo e refrigerantes em embalagens cartonadas são exemplos corriqueiros de materiais que chegam às usinas de triagem e seguem diretamente para o rejeito.
Conforme aponta Marcello José Abbud, a questão das embalagens de ultraprocessados ilustra com clareza um dos principais paradoxos da gestão de resíduos urbanos: o consumidor separa e descarta corretamente, a coleta seletiva recolhe o material, mas a usina de triagem não consegue processar e encontrar mercado para boa parte do que foi coletado. O problema não está no comportamento do cidadão nem na operação da usina, mas no design original da embalagem, que nunca foi concebido com critérios de reciclabilidade.
Desperdício alimentar e resíduos orgânicos associados
Além das embalagens, o consumo de ultraprocessados contribui para o desperdício alimentar de forma indireta. Isso ocorre porque alimentos com alta vida útil nas embalagens tendem a ser comprados em volumes maiores do que os efetivamente consumidos, resultando em descarte de produtos vencidos ou parcialmente utilizados. No Brasil, o desperdício alimentar atinge proporções expressivas, com estimativas que apontam para perdas de dezenas de milhões de toneladas de alimentos por ano ao longo de toda a cadeia produtiva e de consumo.

Na perspectiva de Marcello José Abbud, o resíduo orgânico proveniente do desperdício alimentar é um recurso que poderia ser valorizado em larga escala por meio de compostagem e biodigestão, gerando composto orgânico para a agricultura e biogás para geração de energia. Contudo, a ausência de sistemas municipais estruturados para a coleta e o tratamento da fração orgânica dos resíduos urbanos transforma esse potencial em passivo ambiental, com a matéria orgânica indo para aterros, onde contribui para a geração de metano e chorume.
Regulação, rotulagem e o papel da indústria alimentícia
A indústria de alimentos ultraprocessados possui capacidade técnica e econômica para redesenhar suas embalagens em direção a formatos mais recicláveis, mas os incentivos de mercado para essa transição ainda são insuficientes no Brasil. Em vista disso, a ausência de critérios obrigatórios de reciclabilidade para embalagens de alimentos, combinada com a falta de tarifas diferenciadas para materiais de difícil reprocessamento, mantém o status quo de embalagens otimizadas para o custo industrial e para o marketing, não para a destinação ambiental adequada.
Conforme reforça Marcello José Abbud, a regulação é o instrumento mais eficaz para acelerar essa mudança. Na prática, exigências de conteúdo reciclado mínimo nas embalagens, proibição progressiva de materiais multicamadas sem rota de reciclagem viável e rotulagem ambiental obrigatória que informe o consumidor sobre a reciclabilidade de cada embalagem são medidas que já demonstraram efetividade em outros mercados. No Brasil, avançar nessa agenda regulatória é uma das formas mais diretas de reduzir o volume de rejeitos nas usinas de triagem e ampliar a eficiência de todo o sistema de gestão de resíduos sólidos urbanos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez