Alexandre de Moraes cobra esclarecimentos de sete tribunais sobre valores pagos a magistrados entre abril e julho, após suspeita de descumprimento do teto constitucional.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que os presidentes dos Tribunais de Justiça do Distrito Federal e dos estados de Goiás, Maranhão, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Rondônia prestem informações, no prazo de 48 horas, sobre pagamentos feitos a magistrados da ativa, aposentados e pensionistas entre abril e julho deste ano. A decisão foi proferida no Recurso Extraordinário 968646, processo em que o Plenário do STF fixou, em março, os parâmetros para garantir o cumprimento do teto constitucional na remuneração da magistratura e do Ministério Público. A medida chega em um momento em que o debate sobre os chamados penduricalhos, verbas que somadas ao salário base ultrapassam o limite constitucional, volta a ganhar espaço público. Para o cidadão que paga impostos e acompanha a folha de pagamento do funcionalismo, entender como funciona essa cobrança ajuda a compreender um dos temas mais recorrentes de fiscalização do Judiciário sobre ele mesmo.
O que motivou a cobrança do Supremo
A origem da decisão remonta a março deste ano, quando o Plenário do STF consolidou o entendimento sobre a aplicação do teto remuneratório previsto na Constituição para membros da magistratura e do Ministério Público. Esse teto corresponde ao subsídio de ministro do Supremo e serve como limite máximo para a soma de salário, gratificações e outras verbas recebidas por juízes, desembargadores e promotores em todo o país. A fixação desses parâmetros teve como objetivo justamente evitar que verbas indenizatórias, como auxílios e gratificações diversas, fossem usadas para elevar a remuneração além do que a Constituição permite.
O despacho assinado por Moraes cita uma reportagem publicada pela imprensa relatando que alguns tribunais teriam autorizado pagamentos em desacordo com os critérios definidos pelo próprio Supremo, mesmo após a decisão de março. Diante dessa informação, o ministro determinou a adoção imediata de providências para apurar se houve descumprimento da decisão da Corte. Segundo a reportagem que motivou a apuração, alguns valores pagos a magistrados teriam chegado a cifras expressivas, o que reforçou a necessidade de verificação individualizada.
Vale explicar que o caso do TJDFT dá uma ideia da dimensão do universo fiscalizado: de acordo com dados do próprio tribunal, com referência em 30 de abril, o quadro somava 371 magistrados, entre desembargadores, juízes de direito e juízes substitutos. Multiplicando esse tipo de estrutura pelos sete tribunais notificados, fica mais claro por que a checagem individualizada de pagamentos demanda tempo e organização por parte de cada corte.
O que os tribunais precisam informar e quais as consequências
Segundo o despacho, os tribunais deverão encaminhar ao STF informações detalhadas sobre os valores das verbas remuneratórias e indenizatórias pagas individualmente a cada magistrado da ativa, aposentado e pensionista nos meses de abril, maio, junho e julho de 2026. Além disso, precisam juntar aos autos cópias das respectivas folhas de pagamento, documento que permite ao Supremo cruzar os valores informados com os parâmetros fixados em março.
A determinação não partiu apenas de Moraes. No mesmo dia, os ministros Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes, relatores de outras três ações relacionadas ao tema (a Ação Direta de Inconstitucionalidade 6604, a Reclamação 88319 e a Ação Direta de Inconstitucionalidade 6606), também exigiram, no mesmo prazo de 48 horas, informações detalhadas dos mesmos sete tribunais. A repetição da cobrança em processos distintos mostra que a questão dos pagamentos acima do teto está sendo tratada em várias frentes simultaneamente dentro da Corte.
As consequências para quem não cumprir a determinação são relevantes. Moraes advertiu que o descumprimento da ordem pode acarretar o afastamento imediato do cargo de direção do presidente do tribunal, além de responsabilização penal, civil e disciplinar. Trata-se de uma medida que reforça o caráter obrigatório da cobrança e sinaliza que o Supremo pretende acompanhar de perto a aplicação prática das regras que ele mesmo estabeleceu meses antes.
Por que o teto constitucional é tema recorrente no Judiciário
O debate sobre penduricalhos no Judiciário não é novo, mas ganha força periodicamente quando relatórios ou reportagens apontam pagamentos que escapam ao limite constitucional. O teto existe justamente para impedir que a soma de diferentes verbas, como auxílio moradia, auxílio saúde e gratificações por acúmulo de função, resulte em remuneração superior à autorizada pela Constituição para o funcionalismo público. Quando esse limite é ultrapassado, o impacto recai diretamente sobre o orçamento dos tribunais, que são bancados com dinheiro público.
Por isso, decisões como essa costumam repercutir além do meio jurídico. Entidades de defesa do consumidor, órgãos de controle e a própria sociedade acompanham esse tipo de apuração porque ela toca diretamente na relação entre gasto público e prestação de contas. A fixação de parâmetros claros pelo Plenário em março buscou justamente uniformizar critérios que antes variavam de tribunal para tribunal, reduzindo margem para interpretações que favorecessem pagamentos acima do limite.
A cobrança feita agora funciona como um teste prático dessa uniformização: mostra se os tribunais estaduais estão de fato ajustando suas folhas de pagamento às regras fixadas pelo Supremo ou se ainda resistem a aplicá-las integralmente. O resultado dessa apuração deve orientar novas decisões da Corte sobre o tema nos próximos meses.
A resposta dos sete tribunais notificados deve indicar se as regras fixadas pelo Supremo em março estão sendo aplicadas na prática ou se ainda existem brechas usadas para elevar a remuneração de magistrados acima do limite constitucional. Para o cidadão comum, o desfecho desse caso ajuda a entender como funciona a fiscalização interna do Judiciário sobre seus próprios gastos, um tema que costuma gerar interesse justamente por envolver recursos públicos e transparência na administração da Justiça. Novas decisões sobre o assunto devem ser divulgadas assim que os tribunais enviarem as informações solicitadas.
Fontes:
Portal de Notícias do STF | Migalhas | Brasil de Fato | Justiça em Foco